quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A vida pela janela

A vida caminhava lentamente pela janela e Cintia, observava a tudo atentamente.
Reparava no rapaz sentado próximo a porta, com as mãos inquietas e mexendo no cabelo a cada virada de cabeça, na garota segurando a cabeça com as mãos e com o olhar distante, pensando sabe se lá em que, talvez no beijo daquela tarde no seu amor de verão, na briga com os pais logo pela manha, ou, sabe se lá, em nada, só segurando a cabeça e lamentando a demora para terminar aquele dia.
Mas, acima de tudo, Cintia reparava na lentidão da vida, no caminhar do mundo.
Era surpreendente como ela percebia coisas que outros tantos, não davam a menor importância. Até certa vez, jura ela de pés juntos, tentara convencer alguns poucos e bons amigos da beleza e grandiosidade das pequenas coisas, dos detalhes, mais sem sucesso. Decidiu então, aproveitar na sua individualidade aqueles momentos, gostosos e simples momentos. E com certeza, a vida que passava pela janela da sala de aula, às oito horas da noite de uma quarta feira nublada e abafada, era muito interessante.
Não havia canto de rouxinóis, nem barulho de água da chuva caindo lentamente no telhado de uma casa de madeira, muito menos o cheiro de grama molhada e a brisa matinal, típicos de uma bela vista pela janela.
Havia sim, o barulho de portas sendo abertas e fechadas com certa euforia e desajeito, passos apresados de tênis e passos lentos de saltos no piso do corredor, falas eufóricas, risadas escandalosas, arrastar de mesas e cadeiras, estralar do ventilador e, principalmente, uma corrente de ar quente e abafado, que entrava pela grande abertura lateral da janela.
Para Cintia, esse, sem sombra de dúvidas, era o paraíso que ninguém via, que ninguém sentia ou percebia. Mas ela, ah ela sentia, via, e apreciava cada pequeno e inconstante momento daquela vista confusa, vista que era mais que puro visual, era sinestésica.
E no seu contexto, cada momento era tão singular e empolgante que, aguardar a cada novo dia a noite para sentar na mesma janela, da mesma sala, para apreciar a mesma diferente vista que passava todos os dias pelas janelas de tantos outros lugares, era quase uma eternidade.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ou será que não? Pois é...

Esquecer definitivamente deveria ser uma matéria escolar.Algo que aprendêssemos desde pequeninos, e, ao nos formarmos, viramos “especialistas”.Não deixando de fora as escolas técnicas e faculdades para quem quisesse aperfeiçoar essa habilidade.Devia ser como aprender a andar de bicicleta, no começo caímos muito, nos machucamos, literalmente “quebramos a cara”, mas depois q se aprende, nunca mais se “esquece”É claro que seria um “esquecer” selecionado. Uma parte do cérebro pra onde mandaríamos todas as lembranças ruins, as experiências constrangedoras, as palavras ditas em má hora, ou aquela coisa inútil que, por um acaso do destino ou por obrigação, tivemos que aprender.Com certeza se esquecer fosse assim tão fácil como aprender a falar, a andar de bicicleta ou até mesmo a fritar um ovo, as pessoas seriam bem mais tranqüilas e felizes.Ou será que não?Pois é, quem sabe...
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(Texto escrito por meados de março de 2007)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

E o vento...

O tempo enrola, quase eterno, parece não passar; e o vento que bate lá fora é frio e barulhento. Mas, no coração, há um pleno silêncio. Um silêncio que ninguém vê, que ninguém percebe. A boca fala, os olhos disfarçam, as mãos se mexem rapidamente, mais o coração, há, esse continua em um profundo e completo silêncio.
Todos vêem aquela pequena garota, feita de sonhos, alegrias e sorrisos, mas ninguém vê a sua tristeza, seu desespero, suas angústias, receios e medos.
Ela chora sozinha, em um silêncio quase imperceptível. A cabeça nas nuvens, a constante análise do cenário, a busca de soluções, de uma luz no fim do túnel; isso é tudo que a pequena garota, feita de sorrisos e diversão procura: a simples, constante e incansável busca de solução.
Mais ninguém nunca disse que teria que ser mãe, pai, irmã, amiga, psicóloga, e acima de tudo, neutra; tudo isso na sua pequena idade. Ninguém lhe explicou como funciona o mundo, ninguém lhe passou uma fórmula, uma solução para tudo que aflige seu pequeno e indefeso pensar.
A barreira está derrubada, as correntes foram arrebentadas, a ferida está aberta e o coração, há, esse insiste, briga, luta, esperneia e não desiste, nunca, jamais!
A razão já não tem argumentos, e os desejos? Esses já se perderam há muito tempo; e o que resta, é tudo o que ela é, tudo o que aprendera a ser, a suportar, a superar...Sobra vontade, sobra inspiração e sobra consideração.
E pode o mundo desmoronar ao seu redor, podem céu e terras desabarem , mas enquanto essa pequena garota não resolver as angústias de seu coração, o tempo continua a enrolar e o vento, parece cada vez mais frio, barulhento e intenso.

Quem sabe...

Sentou-se ao seu lado. Silêncio
Ele comentou:
- Que chuva não?
Ela respondeu:
- Pois é...
E novamente silêncio.
Os olhos dele fitavam-na de relance, e os dela, compenetrados na pequena janela lateral.
O ônibus seguia o seu curso, mas ela parecia perdida.
Ele tentou novamente:
- Se continuar a chover assim, periga dar enchente né?
Ela, por simples questão de educação respondeu:
- Pois é, quem sabe...
Ele ainda insistiu, tentou traçar uma continuação para aquela conversa, quase um monólogo:
- O rapaz do tempo, lá do Jornal do Almoço, disse que chove assim até a próxima semana e depois, sabe se lá né?
Ela, decidida a terminar ali a conversa, só murmura:
- Pois é...
O rapaz entende que esse papo de clima definitivamente não estava agradando a moça. Quem sabe ela havia perdido os pais, um parente ou algum amigo em uma enchente. Talvez no mar ou quem sabe num rio. Quem sabe ainda, ela não estava junto e não pode fazer nada, ou pior, pode, e não fez. Quem sabe...
Pensou em começar outro assunto, quem sabe perguntar sua opinião sobre a crise na Bolívia, ou sobre a queda do dólar; mas ela poderia ter perdido muito dinheiro com isso e, por tal motivo, estava naquele ônibus ao seu lado. Pensou em comentar sobre a proximidade do Natal, mas e se ela não fosse religiosa nem nada, e considerasse a data mera forma de o comércio lucrar as custas dos pobres trouxas que se enchem de prestações para agradar, ou até mesmo impressionar parentes que vêem mal e mal uma vez por ano.
Talvez a vitória do Brasil sobre a Argentina, mas e se ela fosse argentina? As únicas palavras que a ouvira dizer eram “Pois é” e “quem sabe”; e somente isso, não era suficiente para reconhecer um possível sotaque. Sem contar que da forma que estava transtornado com a busca de assunto, nem lembrava mais da voz da moça. Pensou em falar sobre as eleições nos EUA, sobre o aquecimento global, a crise na saúde pública, o assassinato da moça pelo namorado em São Paulo, da ultima eleição de jardins da cidade, do novo prefeito e vereadores, de dicas de academia, comidas favoritas, do último Miss Brasil, dos jogos pan-americanos, da greve da linha de ônibus da cidade vizinha e o quanto isso havia afetado o fluxo de veículos da região, pensou em falar até sobre o quanto o preço do seu suco de caixinha havia subido. E, no final, resolveu ser direto e perguntar o mais simples, o nome da moça de olhos e cabelos castanhos encaracolados que estava sentada ao seu lado.
Exatamente nesse momento, sente um cutucão no seu ombro, se vira empolgado e a moça, com a mesma expressão neutra e os mesmos olhos distantes do início da viagem simplesmente pede:
- Licença.
Ele vira-se pro lado, ela passa, anda rapidamente pelo corredor, entrega a passagem, desce. O ônibus segue o seu caminho e o rapaz, fica sem saber afinal, qual a opinião dela sobre a crise na Bolívia.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Poema de sala

Poeminha feito só com frases ditas ontem na aula de Psicologia da Comunicação II..xD
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O novo sempre
Porra Lola, Porra
Vai viver seu deserto, vai!
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(muito poético não? oO...literatura abstrata...=p...)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Regra três

Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais
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Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar
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Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar
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Vinícius de Moraes e Toquinho são eternos!
http://br.youtube.com/watch?v=UatW3jGwkHo

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Feito um vendaval

Paixão é a alucinação amorosa. E os apaixonados são de duas espécies: os generosos, que se dão inteiramente, se jogando nas mãos do outro, e os possessivos, que querem que o outro se incorpore a eles convertidos em sombra viva.
Paixão, por isto, é arma de dois gumes. E corta. E sangra. Se não sangrou, se não teve insônia, se não desesperou, paixão não era. Talvez fosse desejo, que o desejo é diferente. No desejo a gente quer o outro para possuir apenas, passageiramente. Na paixão, não. Na paixão, a gente quer se fundir com o outro, para sempre. E se o outro disser assim: “Vai ali buscar aquela estrela para mim”, a gente vai. Se disser: “Não estou gostando do seu nariz”, a gente opera. A paixão é boa? A paixão é ruim? Ninguém sabe. Ela acontece. Como certas tempestades ela acontece. Assim como depois dos vendavais os elementos da natureza já não são os mesmos, ninguém é o que era depois do desvario da paixão. Vidas renascem com paixões. Outras viram cinza por causa dela. E há pessoas que são como aquela ave mítica, a Fênix, vivem renascendo das cinzas da paixão.
Marx (Karl Marx, filósofo e economista alemão) errou completamente. Não é a luta de classes que move a história, é a paixão. Paixão é a revolução a dois. E toda a comunidade fica abalada. Foi assim com Romeu e Julieta. Foi assim com Tristão e lsolda. Não é de hoje que reinos se fazem e se refazem por causa da paixão.
Existe diferença entre amor e paixão? Existe. No amor, claro que há luminosa coabitação. Mas o amor é também paciente construção. Já a paixão é arrebatamento puro e a voragem é tão grande que pode tudo se esgotar de repente. Quantas vezes se apaixona numa vida? Há gente que vive se inventando paixões para viver. E há gente que organiza toda sua vida em torno de uma única e consumidora paixão.
Paixão é transgressão. Quanto mais obstáculos inventarem, mais o apaixonado os saltará. E o apaixonado não tem medo do ridículo. O que lhe importa o mundo se o seu mundo é apenas o mundo da pessoa amada? A paixão tem cor. É roxa. E é vermelha. Pressupõe morte e ressurreição. Da paixão vivemos muito.
Da paixão morremos sempre.
Affonso Romano de Sant’Anna, poeta e cronista mineiro.
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Texto que uma professora (Maristela Pereira Fritzen), trouxe para o dia dos namorados semestre passado.
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